quinta-feira, 29 de maio de 2014

Os crimes anunciados

Toda a vez que a imagem do menino Bernardo aparece na mídia, a revolta das pessoas é unânime. Não há quem não se manifeste a favor de penas duras para o pai, o médico Leandro Boldrini, a madrasta, Graciele Ugulini, e a amiga dela, Edelvânia Wirganovicz, e o irmão, Evandro Wirganovicz, suspeitos de terem planejado e executado um dos crimes mais bárbaros dos últimos tempos no Brasil. Frases como “Que horror!”, “Coitadinho do menino!“, “Esses aí têm que apodrecer na cadeia!” e “Justiça contra os assassinos de Bernardo” são as mais comuns.

O estudante gaúcho, que deu inúmeros sinais em vida de que estava sofrendo com a indiferença e o desprezo com que era tratado em casa, tentou desesperadamente que alguém o resgatasse, mas ninguém moveu uma palha sequer para salvá-lo.

A empregada, parentes, vizinhos e amigos garantem que “não imaginavam” que um pai, que exerce uma profissão comprometida em salvar vidas, arquitetasse algo tão monstruoso. Se é que se pode chamar de “pai” e de “médico” um homem supostamente capaz de tanta frieza e crueldade contra o próprio filho. Será, mesmo, que não imaginavam?!

Nos depoimentos prestados na delegacia de Frederico Westphalen, as testemunhas choraram e lamentaram profundamente o hediondo crime - possivelmente na tentativa de aliviar a culpa por nada terem feito em favor do menino, órfão de mãe e impedido de ver a avó – enquanto ainda era possível.

O “vil metal” falou mais alto na hora de decidirem pelo assassinato da criança, para impedir a divisão do patrimônio e até mesmo o pagamento de pensão alimentícia à avó. Isso sem falar na covardia dos que cercavam a vítima.

Em tempos de individualismo e insensibilidade extremos, atos de coragem pelo bem do ser humano são cada vez maios raros. E esse papel também cabe aos pais, que hoje parecem mais preocupados em criar filhos competitivos, instigados a serem “os primeiros” em tudo, a qualquer custo, em detrimento da ética e do caráter.

“O Disque Denúncia, no 181, é o canal para se registrar crimes e suspeitas de forma anônima”

O que mais se vê são pessoas que presenciam violências praticadas contra crianças, mulheres e idosos e que se calam, se omitem, fecham a porta e tapam os ouvidos. Indiferentes ao sofrimento alheio. “Não quero me meter, porque depois pode sobrar para mim!”, justificam. Quem já não ouviu essa frase?
Hoje temos do Disque Denúncia (181), que registra, de forma anônima, crimes de violência doméstica, sexual e abandono de incapaz, (crianças deixadas sozinhas em casa, negligenciadas, assim como pessoas com algum tipo de deficiência e idosos).

Está na hora da sociedade despertar e se posicionar, ter a consciência de que cada um tem que fazer a sua parte, exercer a cidadania. É o que se espera de uma sociedade organizada. Já dizia Martin Luther King: “O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”.




domingo, 25 de maio de 2014

No Mundo da Lua - A barca - página 2 do Jornal do Vale do Itapocu, edição de 23.05.14


A barca

O dia mal amanheceu. A barca que conduzirá Ushiro está atracada na margem do rio. O jovem abraça longamente a mãe, que chora copiosamente à sua despedida. Ela sabia que um dia esse momento iria chegar, mas nunca se sentiu preparada. E agora Ushiro iniciaria a jornada para ir trabalhar em uma plantação de arroz no outro lado do país, onde as oportunidades eram melhores e havia a esperança de economizar e garantir o futuro, dele e da mãe viúva. Ali, naquele pedaço de terra isolado, não havia futuro para os jovens. 

Kaneko lembra de como o filho era frágil, inseguro e assustadiço, de seus lindos e luminosos olhos. A introspecção e o porte orgulhoso sempre marcaram sua postura. E pensar que ele se achava feio e baixinho, para os padrões do lugar!, pensa a mãe, sorrindo. 

Nas horas que antecederam a despedida, recordou com certa nostalgia das noites em claro que passou, do zelo que sempre teve para com ele, da extensa jornada de trabalho tecendo o algodão e a lã, dos sacrifícios para colocar a comida na mesa... 

E agora a barca estava esperando, a poucos metros, para arrancar dela o seu bem mais precioso. Ao soltar o abraço, Kaneko seca rapidamente as lágrimas. Ushiro faz o mesmo, mas se recompõe rapidamente e mantém a postura ereta. Era um homem, e homens não choram, muito menos na frente da mãe. 

- Não chore, mãe. Eu vou ficar bem, a senhora vai ver! Logo, logo eu consigo guardar um dinheiro e vou lhe enviar. Prometo que venho visitar a senhora sempre que puder. Não vou demorar... 

O barqueiro alerta que está na hora e Ushiro corre. Ao entrar na barca, lança um último olhar à mãe, que acena e sorri, sem conter as lágrimas que continuam a escorrer pela face. 
Na volta para casa, com o coração apertado, ela encontra o venerável da aldeia. 

- Boa tarde, dona Kaneko! A senhora parece abatida... Aconteceu alguma coisa?, pergunta o venerável ancião. Ele sempre era procurado para aconselhamento em questões comunitárias e sentimentais. 

- Meu filho foi embora! O meu menino partiu naquela barca e nem sei quando o verei de novo...Ele vai para tão longe... 
- Minha cara dona Kaneko, lembre-se de que os filhos têm espíritos livres, e que têm o direito de escolher o próprio caminho... Ninguém vive a vida do outro. Cabe às mães criarem seus filhos com valores de ética, honestidade, generosidade e retidão de caráter, e passar um bom exemplo.

- Eu sei, mas não é fácil... 
- Entendo perfeitamente, dona Kaneko. Sei que não é fácil. E sei também que foi uma ótima mãe. 
- Obrigada...

- Cada um tem a sua missão. Nos é dada a oportunidade de viver essa missão da melhor maneira possível, devotando a própria vida, mas a opção é da pessoa em querer cumprir seu Karma, ou deixar para a próxima encarnação... 

- E o que devo fazer? 
- Pratique o desapego, ore por ele e se mantenha receptiva. Seu filho tem que saber que tem um lugar para voltar e uma mãe amorosa para rever, sempre que sentir saudade. 
Com a expressão da face aliviada, Kaneko agradeceu e se curvou, em sinal de respeito. 
- Sou muito grata por suas palavras. O Universo providenciou que o encontrasse... 
- Nada acontece por acaso, dona Kaneko, disse o venerável, misteriosamente, antes de seguir pela estrada.

A ilha e o iluminado

Envolto em suas vestes rústicas de algodão, o venerável iluminado dividia com seus discípulos o pouco de arroz que havia sido trazido pelos visitantes do último verão. Os viajantes enfrentaram grandes dificuldades até encontrá-lo, em busca de um novo sentido para suas vidas. O rigoroso inverno fazia com que as poucas cabanas do vilarejo ficassem tomadas pela neve. 

O vento soprava forte e o frio congelava o corpo até os ossos. Assim, uma tigela de arroz quente era uma dádiva que o mestre agradecia profundamente. Desde que havia sido exilado para esta inóspita ilha de Sado, na longínqua província de Niigata, ele sabia que sua vida não seria fácil. Mas aceitou o degredo com resignação. Aliás, sobreviver naquelas circunstâncias seria seu primeiro grande desafio, para depois cumprir sua missão espiritual, de transmitir para seus adeptos a essência do budismo: a benevolência.

Desde o primeiro dia em que desembarcou na ilha, o monge tinha consciência de que precisava usar todos os ensinamentos que adquiriu. Após anos de pesquisa nos escritos secretos de Sakyamuni, o primeiro Buda, se sentia na obrigação de fazer isso. Era sua missão e ele não iria fugir! A falta de alimentos, roupas adequadas e materiais para escrita nunca o desencorajaram. O sofrimento físico era suportado sem queixas: intensificava as orações. Mas o que o abalou profundamente foi saber que seus seguidores de Kamakura haviam abandonado a fé. 

Enquanto mastigava lentamente sua porção de arroz, se dirigiu aos fiéis discípulos: “o arroz não é meramente arroz, mas é a própria vida”. Com isso, reforçava que garantir o alimento para si e para os demais é indispensável para a sobrevivência do homem. Sem sentia cansado, profundamente esgotado. Sabia que seu fim estava próximo. Vislumbrou que a série de escritos que deixou aos discípulos, os goshos, um dia iriam sair do Japão e ganhar o mundo. 

Sentia que, como mestre, precisava abrir os olhos das pessoas para que enxergassem a verdade, se libertassem das ilusões e das visões distorcidas, para que identificassem o caminho correto. Para que fossem éticos e comprometidos com o bem comum em suas ações. Seria como um testamento humanista para a humanidade. Isso o deixou gratificado. 

E foi assim, com esse sentimento de dever cumprido, que Nitiren Daishonin, que mais tarde seria chamado de “O Buda Original dos Últimos Dias da Lei”, se recolheu para dormir o seu último sono, na noite de 13 de outubro de 1282. Ele tinha 60 anos e deixou um rastro de bondade, compreensão e esperança ao seu redor. 

Um dia antes de partir, para desolação dos que o amavam e sentiam que se tratava de uma despedida, Nitiren entregou seus documentos ao discípulo Nikko, que mal conseguiu conter as lágrimas. Enquanto viveu, Nikko guardou as relíquias como a própria vida. As futuras gerações lhe foram gratas.

A emoção da Palhaça Dorothy

A roupa e a maquiagem de palhaça há mais de um ano permaneceram guardadas, intactas. Porém, naquele domingo chuvoso, um motivo muito especial me fez decidir reviver a personagem. Eu iria participar de um evento beneficente em um asilo, promovido por um amigo muito especial, Henrique Leques, dos tempos do curso de manequim e modelo, em Porto Alegre, que hoje está à frente de uma das mais renomadas escolas de modelos da capital gaúcha.

Em 2013, cheguei a participar do desfile beneficente, mas esse ano decidi mais uma vez dar vida à Palhaça Dorothy. Minha intenção não era mais me apresentar aos idosos que podiam assistir ao evento, mas sim, aos acamados, cadeirantes, solitários, deprimidos, que permaneciam nos alojamentos. Eu queria levar a alegria da personagem, espalhar sorrisos, deixar uma mensagem de esperança e de fé, olhar nos olhos, apertar as mãos e distribuir abraços aos que passavam os dias à espera de uma visita, de palavras, ou gestos de carinho.

Imaginava que a iniciativa exigiria bastante energia e autocontrole das emoções, quando me deparasse com situações de abandono, de desinteresse pela vida. Por tudo isso, procurei chegar cedo na Spaan (Sociedade Porto-alegrense de Amparo aos Necessitados). Antes mesmo de começar a me arrumar para incorporar a personagem, orei. Sabia que precisava ser forte, e ao mesmo tempo, suave. À medida que iniciava a maquiagem multicolorida com purpurina, a Palhaça Dorothy foi tomando conta de mim e eu saí pulando, alcancei os corredores e fui visitando os alojamentos (ou melhor, a palhaça foi!).

Pedia licença, sorria e dizia que era portadora de alegria e esperança: “Nunca percam a fé, a alegria e a esperança. Aqui é uma comunidade, sejam solidários uns com os outros. Tenham amor no coração. O Universo sempre olha por todos nós”. Em cada pessoa, uma história e uma reação diferente. Para todos, indistintamente, palavras de incentivo. Em uma de suas últimas visitas, a palhaça foi surpreendida. 

Ao dizer que estava trazendo a alegria da palhaça e do circo, uma das residentes disse, lamentando: “Sabia que nunca fui no circo? Meu pai não deixou. E quando cresci, não tive mais oportunidade”. - Pois então, agora sei porque tinha que vir hoje aqui! Era pra trazer o circo até você! Viu? Nunca é tarde! Os olhos da idosa brilharam de felicidade e gratidão. Foi quando segurei as suas mãos e disse, olhando no fundo dos olhos, para que nunca perdesse a esperança e a fé. Depois a abracei e ambas nos emocionamos. 

Foi um dos momentos mais gratificantes que vivenciei na pele da Palhaça Dorothy. De doação, de coração. Sim, com certeza Dorothy haverá de ressurgir! Dorothy defende que o mundo precisa de atitudes humanistas, de comprometimento. Que basta começar. Fazer a parte de cada um. “Gotas de água, unidas, podem formar um oceano.”


Diógenes encontrou a paz

Todo mundo no escritório sabia que o doutor Diógenes Mourão era um homem inquieto. Não, ele não fez doutorado, é um homem de leis. Direito Trabalhista. Os colegas o enxergam como um “leão”, sempre que um funcionário se sente lesado e o procura para ser defendido. É um homem de bem, sem dúvida nenhuma. Idealista, desde pequeno queria ser advogado “para defender as pessoas”, dizia.


E é justamente por ter um caráter ilibado e ser um homem essencialmente correto, que se irritava toda a vez que se deparava com as desigualdades do mundo. Era ético, acima de tudo. E olha que ele fazia de tudo para mudar essa condição! Até conseguia em muitos momentos. Ouvia música relaxante e acendia incenso em seu gabinete nos momentos mais tensos, como quando recebia um revés da parte contrária e seus clientes perdiam uma ação, injustamente.

Além de tudo isso, praticava aulas semanais de ioga, se empenhava em aprender e lia, lia muito sobre a elevação espiritual. Revistas, livros, tudo o que estivesse ao seu alcance. Sentia uma leveza que não sabia explicar, somente sentir... Nessas horas, respirava fundo, fechava os olhos e se imaginava subindo uma colina. Em outros momentos, lembrava da figura carismática e envolvente do Dalai Lama, o Tensin Gyatso, com suas vestes vermelhas e e sorriso enigmático...

Paz. Apenas três letras, mas com um significado gigantesco.
Guerras foram declaradas com o objetivo de se
buscar a paz, como se ao seguir o milenar Código de Hamurabi,
acirrando ódios, fosse possível se alcançar a paz...

“Paz e amor”, diriam os hippies. “Paz é amor”, pensou. Lembra de uma revista, a Terceira Civilização, onde leu “A paz começa com você”. Foi quando confirmou o que já intuía, de que não se tratava apenas de ausência de guerras e de conflitos. E que fazer a felicidade dos outros ,
defender a causa dos que sofrem e combater as forças do mal que causam o sofrimento é a missão de cada um. “A sua felicidade pode criar a paz”, concluía a revista. 

Faz sentido! Se eu estiver feliz, estarei em paz e espalharei
a paz ao meu redor. Se isso for multiplicado, mais e mais pessoas no mundo inteiro farão uma corrente para se criar a paz mundial...

O relógio marcava 18h e o escritório começava a se esvaziar. Repentinamente ele deixa a sua sala, se despede dos funcionários e decide ie direto para casa. Olhou para o céu e se deslumbrou com o brilho das estrelas. Sentiu plenitude e se encheu de esperança.