quarta-feira, 27 de agosto de 2014

CONTO - A estrada poeirenta

O relógio da sala toca as cinco badaladas e o despertador toca poucos segundos depois. O dia ainda não amanheceu, mas a hora é agora! Espicho os braços e as pernas, feito um felino por alguns instantes, e em seguida dou um pulo da cama. Não há mais nenhum segundo a perder. Já adiei demais esse momento. Ao lavar o rosto, me detenho um pouco na imagem refletida. Estou pálido e com olheiras. E cadê aqueles olhos brilhantes, aquele sorriso sempre pronto para se abrir?

Olho mais atentamente para mim mesmo e só vejo cansaço e uma certa melancolia. Por que nem sempre o que se planeja na vida é o que acontece? Por que a vida sai do nosso controle, às vezes? Por que algumas decisões são tão difíceis de serem tomadas? Por que?!

Não, o espelho não vai me dar essas respostas... O tempo talvez esclareça. O tempo... o misterioso tempo, envolto em brumas, indecifrável... Coração aperta, os olhos marejam. Solto um longo suspiro, ajusto o boné e reforço a minha decisão de partir.

Em seguida, me dirijo até a porta, pego o mochilão, a sacola de mão com água, iogurte e o cream cracker. Vou ter que caminhar por algum tempo até chegar à rodovia que me levará ao meu destino. Não há mais tempo a perder! A hora é agora!

Apresso o passo e alcanço o portão. Os passarinhos começam a cantar e a manhã vai clareando mais e mais. Caminho decidido mais alguns metros e pronto: alcanço a estrada sinuosa. Lá ao longe vejo o trator do vizinho vindo em minha direção. A movimentação no campo começava a se intensificar.
Um cachorro magro atravessa na minha frente, pouco antes do vizinho passar por mim, me cumprimentar com um sonoro “bom dia!” e seguir em frente, levantando poeira... A estrada poeirenta se parece com os meus pensamentos, turvos, que dificultam a minha visibilidade.

- Finalmente alcancei essa BR! O jeito vai ser caminhar mais um pouco até o posto de gasolina. Lá vai ser mais fácil conseguir uma carona até a fronteira. A essa hora, já se deram conta de que fui embora. Melhor assim, sem despedidas...

Enquanto falava sozinho, sentia as minhas pernas cansadas de tanto caminhar. Já são mais de 8h e o sol agora se abriu por completo. Sinto calor e vou tirando a jaqueta enquanto me dirijo aos cerca de 500 metros que faltam até o posto. Estou com sede. Então pego a garrafa de água mineral e começo a beber.

Olho em volta, caminhando às margens da BR, e vejo caminhões, carros e motos correndo, de lá para cá e de cá para lá. Quantas histórias estão se desenrolando agora! Cada um com sua trajetória... Solto mais um suspiro. Anda, homem! Anda para frente, vai! Falta pouco para alcançar o posto de combustíveis...

- Olá, amigo! Me dê uma média e uma coxinha, por favor! Obrigado!
- Disponha...
- Escuta! Estou precisando de uma carona até a fronteira. Você sabe de alguém que vai para o lado de lá? Estou vindo de Arraial do Monte.
- Daqui a pouco passa o Juvenal aqui. Ele está precisando de um “chapa”, quem sabe...
- Obrigado!
Decido esperar pelo tal Juvenal. O quanto antes sair daqui, melhor. Quero começar uma vida nova...


É nesta quarta-feira (27), a partir das 19h30, na Biblioteca Pública Municipal Rui Barbosa! Aberto à participação de todos. Estarei lá para um bate-papo sobre literatura e especialmente sobre o lançamento do meu segundo livro solo, "ENCONTRO COM A PAZ e outros contos budistas", editado pelaGiostri Editora, de São Paulo, que foi lançado dia 18 de julho, no Museu Emílio Silva. Apareçam! 
lihttps://www.facebook.com/events/771117172955039/
Entrevista que foi ao ar pela manhã no "Studio Atualidades", com Sergio Peron, em que falo sobre a minha participação na Ciranda Literária de Jaraguá do Sul, às 19h30 de hoje, na Biblioteca Biblioteca Pública Municipal Rui Barbosahttp://studiofm.com.br/#Studio-news/Studio-Atualidades-na-Integra-56/27-de-agosto-2858

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Crônica - Uma ponte entre o passado e o presente

As minhas melhores lembranças da primeira infância me remetem à casa da oma Clara e do opa José, no bairro São Geraldo, em Porto Alegre. E por serem lúdicas, e por estarem relacionadas à felicidade e ingenuidade da primeira infância, é que essas lembranças  são tão vívidas.
Meus avós maternos eram pessoas simples, sem muito estudo, que levavam uma vida franciscana, mas esbanjavam atenção e carinhos aos netos. Volta e meia lembro com nostalgia das rosas e das orquídeas tão bem cuidadas do canteiro de minha oma. Lembro também do meu opa chegando com o pão preto e o peixe defumado que eu gostava tanto, saboreados na refeição noturna.
Minha avó era exímia na cozinha, especialmente nos doces e sobremesas, na preparação de compotas, assim como nas habilidades com o bordado, tricô e crochê. Quantos casacos, blusões e cachecóis que ela me fez amenizaram o rigoroso inverno gaúcho? Perdi a conta!
Marceneiro, vovô José era hábil no manuseio das ferramentas e da madeira. Alguns móveis da casa ele mesmo fazia, e posso dizer que tenho o privilégio de ainda ter comigo uma mesa e uma coluna feitas por aquelas mãos calejadas e laboriosas, que hoje estão revitalizadas na sala de estar...
Mesmo aposentado, volta e meia ele produzia mimos, como caixinhas de madeira e brinquedos, feitas na oficina que mantinha nos fundos da casa de alvenaria antiga, dessas que hoje o Patrimônio Histórico costuma tombar... Fechando os olhos e voltando no tempo, quase consigo sentir o cheiro da madeira e ouvir o som do serrote, da plaina, do lixamento das peças e das marteladas...
Lembro também da agitação, da afetuosidade efusiva e dos latidos e da cachorrinha Bela, que me acompanhou até a adolescência, depois mesmo que os dois já haviam... Do pomar de frutas cítricas, do pessegueiro, do canteiro de temperos e do espaço onde vovó Clara colocava a roupa branca para “quarar” no sol...
A duas quadras dali tinha a praça, onde muitas vezes brinquei no balanço, na gangorra, no escorregador, com o baldinho e a pá, na areia do parquinho... As árvores e a grama refrescavam nos dias de calor.
No último final de semana, depois de décadas, decidi rever aquele lugar. Queria fazer uma ponte entre o passado e o presente.
Corajosamente, percorri a Praça Pinheiro Machado de minha infância, mas confesso que pouco encontrei daquele tempo. Onde antes haviam crianças alegres, hoje estão instalados sem-teto, excluídos que buscam a felicidade de forma artificial e, muitas vezes mortal...
Contornando a Praça, ainda busquei o obelisco onde ficava a placa de bronze em homenagem a Pinheiro Machado, que já havia sido arrancada... O que sobrou de bom foi o gramado, as árvores e as flores, o prédio do pré-escolar... Que alívio! Essas imagens amenizaram a decadência geral do local...
Depois fui buscar a casa dos meus avós. Será que ainda está de pé? Será que tem um edifício no lugar? Não! A casa antiga está lá, mas totalmente descaracterizada, com muro e portão altos, tornando a visão interna inacessível. Com certeza, hoje não existe mais o canteiro, nem o galpão, nem nada do meu tempo de criança... Soltei um longo suspiro. Uma certa tristeza me invadiu naquele momento, mas imediatamente me recompus.

O tempo passou, mudaram os proprietários, o mundo girou muitas e muitas vezes de lá para cá... Eu tinha feito a ponte entre o passado e o presente, e sempre terei boas lembranças a carregar na memória. Foi aí que agradeci ao Universo por ter boas recordações dos meus avós, que nunca irão se alterar, e fui embora feliz.  

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A morte que chocou o País

Crônica

Um político jovem e carismático, com uma carreira surpreendente e com um futuro promissor, que acalentava um sonho antigo: ser Presidente do Brasil. Faltando menos de dois meses até o momento em que os brasileiros terão de se dirigir às urnas, seus planos são interrompidos abruptamente com a queda da aeronave, com mais seis pessoas, em uma área residencial de Santos, no litoral paulista. Sem saber, na fatídica manhã do dia 13 de agosto, ele se preparava para sua última viagem, para o “Voo da Morte”.
Era a terceira opção, ocupava o terceiro lugar nas pesquisas de opinião, depois de Dilma Rousseff e de Aécio Neves. Era idealista, trazia a política no sangue e no DNA. Se elegeu e se reelegeu ao governo de Pernambuco. Ao ter a ex-senadora Marina Silva como vice na chapa, apontada como “boa de voto”, após a surpreendente votação no pleito anterior, ele era visto como opção para os que não aprovavam nem a reeleição de Dilma, tampouco a eleição de Aécio...
Casado, 49 anos (completados no domingo que passou), pai de cinco filhos, no auge da popularidade e em uma das fases mais produtivas da vida de um homem... A meta estava lá na frente, mas a morte veio antes! O imponderável aconteceu, pegando a todos de surpresa e comprovando a máxima de que “para morrer, basta estar vivo”...
Nessas horas, as reações são as mais diversas. Teve gente que, repentinamente, passou a jurar de pé junto que iria votar nele. Outros imediatamente procuraram jogar no atual governo a culpa pela morte do presidenciável: “Será que foi, mesmo, acidente?”, “Está na cara que foi a Dilma!”, e por aí vai... O fanatismo de uns passa a criar uma teoria da conspiração. São possivelmente os mesmos que juravam de pé junto que a Copa já havia sido comprada pelo governo brasileiro. Pois é...
Mas o mais chocante foram as “piadas” relacionadas à tragédia, mostrando a que ponto pode chegar a insensibilidade de algumas pessoas em um momento em que a Democracia está de luto.
Agora esqueça a sigla partidária! Estamos falando de vidas humanas! Onde está o respeito à dor das famílias? Onde está o sentimento de solidariedade, o choque com a forma como os corpos das vítimas foram encontrados?!
Vale lembrar que além de Eduardo Campos, mais seis pessoas morreram, integrantes de seu staff de campanha e comandantes de voo. Onde está o sentimento humanitário? Choramos mais com a desclassificação do Brasil na Copa do que com a morte trágica de pessoas que tiveram as vidas ceifadas prematuramente?!
É por isso que defendo a necessidade urgente das pessoas despertarem e resgatarem valores humanos “esquecidos”, como amor universal, solidariedade, ética, lealdade... Que mundo queremos deixar para nossos filhos e netos? Para onde está nos levando o egoísmo, o egocentrismo, o materialismo e a ambição desmedida?
É preciso ser solidário com as famílias e amigos de Eduardo Campos e dos outros seis que morreram no Voo da Morte. Por que respeitando a morte, estaremos valorizando a vida. Debaixo da terra, somos todos iguais. Afinal, poderia ter acontecido comigo, com você, com qualquer um. Essa é a reflexão que considero pertinente nesse momento.

 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A fábula televisiva

Ele “chegou chegando” com seus dois metros de altura, ombros largos, andar gingado e olhando para todos os lados, com o seu olhar penetrante. Estava vistosamente trajado. Usava um conjunto branco bordado, mais parecendo um toureiro espanhol, pronto para entrar na arena e encarar o touro. A franja caída em um dos olhos e a fisionomia séria até poderiam causar certo medo, para quem não o conhecia, mas seus olhos evidenciavam a doçura de um homem apaixonado. Estava pronto para se dirigir ao altar, de onde surgirá a amada.

E lá vem a noiva! Ela está rosa da cabeça aos pés, incluindo os cabelos, usa um vestido longo e rodado, e tem um sorriso estampado no rosto, como uma princesa. O noivo mal cabe em si de felicidade, ansioso para que os “salamaleques” da cerimônia religiosa acabem logo e ele possa “voar” dali, levando seu grande amor na garupa do cavalo, rumo à lua-de-mel...

E o coronel? Ah, esse coronel!... E não é que parece mesmo Napoleão, com sua pose de dono do mundo, seu olhar altivo, tom imperioso de voz e “palavriado” rebuscado? Lá está ele, ao lado da mulher, aquela espalhafatosa! Ela mais parece uma rainha louca dos contos de fadas, com  suas roupas multicoloridas, cheias de bordados, rendas, apliques, adereços e adornos, com aquela gargalhada escandalosa e seus célebres “pitis”!
O dono da venda vem logo depois, todo saltitante, agora que arranjou mulher nova (“e como é nova!”, dizem os fofoqueiros de plantão!).

Ah, mas tem o outro noivo também! Tão aristocrático, tão estudado, tão fino... e caído de amores por aquela roceira xucra, que mal sabe escrever o nome! Vai entender os mistérios e as peraltices de Cupido, não é mesmo?...
A igreja estava lotada. E não era para menos! Com certeza aqueles dois casamentos seriam lembrados por muitos e muitos anos naquela comunidade, tão bizarra quanto fascinante...

Ah, mas como esquecer aquele moleque travesso, que vive aprontando e que conquistou a todos com sua irreverência e carisma? E a doce menina que está ao lado dele, que mais parece uma boneca de louça, do tempo da bisavó, de tão perfeitinha?

Nessa cidade onde o verde é mais verde, as flores têm um colorido mais vivo, os animais vivem tranquilos no pasto e o céu é mais azul, a Esperança é prima da Felicidade e, apesar de muitas vezes demorarem para se encontrar, ambas sempre correm juntas!

E agora aquele menino encantador está em seu quarto, segura uma casinha de madeira, a coloca em uma superfície, onde pouco a pouco também vai colocando um a um, os personagens mais marcantes... É interrompido pelo chamado da mãe e fica olhando para os bonecos, com ar sonhador... até que se despede da platéia e sai de cena.


É, Serelepe... Vai ser difícil esquecer “Meu Pedacinho de Chão”,  essa fábula televisiva mais lúdica e inocente dos últimos tempos!...