quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CONTO - Lembra daquela noite de Halloween?

Era noite de lua cheia. Como poderia esquecer? Nunca vou conseguir apagar da minha memória. Eu estava andando pela beira da praia, pensando na vida. Podia ouvir o som das ondas ruidosas batendo na areia, o vento soprando nas minhas costas, como se estivesse me empurrando para frente.

O céu azul coberto de estrelas e aquela lua enorme, luminosa, enigmática, me fascinavam. Me senti hipnotizado por aquela visão mágica. O mar bravio se mostrava com toda a sua força. Olhei para o outro lado e vi ao longe alguns veranistas rindo em suas choupanas.

Presto atenção em um grupo barulhento. Eles soltam gargalhadas de copo na mão e cantarolam uma música antiga. Algumas mulheres dançam. Felizes? Sei lá...

Resolvo virar de costas para os festeiros e fico olhando o mar, iluminado pelo luar. Nesse momento, um grupo de jovens passou gritando pela praia. Estavam vestidos de bruxos, com roupas pretas, chapéus pontudos, máscaras de monstros. Seus rostos eram pálidos e apresentavam profundas olheiras.

Alguns vestiam malhas coladas no corpo, com caveiras estampadas. Uma menina de estatura baixa estava à frente do grupo. Ela segurava uma abóbora oca que tinha os olhos e a boca iluminados por velas. Estranhamente, apesar do forte vento, as velas se mantiveram acesas! Um gato preto, magro e de pelo arrepiado, olhar atento, a acompanhava.

- Ah, claro! Hoje é Halloween, o Dia das Bruxas! Devem estar indo para algum clube comemorar... Quanta criatividade!, pensei, ao mesmo tempo que ficava fascinado por aquele bizarro cortejo. As fantasias eram tão perfeitas que até pareciam bruxos de verdade, pensei.

- Parece que saíram de alguma tumba! Lembra até aquele videoclipe, o Thriller! Isso mesmo! Ah, se eu tivesse grana, com certeza iria nessa festa!, disse, baixinho.

Foi aí que uma linda jovem se aproximou de mim com um olhar sedutor. Ela vestia uma minissaia preta de couro, uma blusa sem mangas da mesma cor, uma meia preta rasgada e uma bota preta de cano curto com fivelas. Parecia uma roqueira de heavy metal, uma gótica, e estava olhando para mim, acredite!

– E aí, cara, tudo susse? Quer vir na festa de Halloween com a gente?
Surpreso e ao mesmo tempo envaidecido, mal consegui responder. – Ah, adoraria! Mas...

- Venha! Você é meu convidado! Vamos?
- E onde é esta festa?, perguntei, com o coração aos pulos, quase saindo pela boca.

- É logo ali, naquele prédio em forma de castelo. É uma festa temática incrível, da hora, você vai gostar!

E eu fui. Ela pegou na minha mão e fomos para a festa. Morgana era o nome dela. Nossa! Parecia a morada da Família Adams! Quando chegamos lá, ela se aproximou mais ainda de mim, me abraçou e beijou longamente. Eu tremia de emoção. Me sentia enfeitiçado por ela. Foi uma noite incrível!...

- E depois da festa? Vocês continuaram se encontrando? O que aconteceu, afinal, Adam?!

- Acordei de manhã, deitado na praia, e nem sinal de Morgana! Ela simplesmente desapareceu... Depois daquele ano, toda a vez que chega a noite de Halloween ela me aparece durante o sono, sorri para mim e me pergunta:

- Lembra daquela noite de Halloween?...

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

CONTO - Suzete, a periguete

Ela sai do escritório com um olhar malicioso, brilhante de expectativa e cheio de promessas. Nem acredita que o fim de semana está começando. Chega em casa correndo, vai para o banho e depois fica um tempão na frente do espelho, fazendo escova no cabelo. A pele parece cansada e as olheiras denunciam as poucas horas dormidas na noite anterior.

- Nada que uma boa maquiagem não dê um jeito! Me aguardem!, pensa Suzete, a periguete, com a imaginação a mil e um sorriso enigmático. Sente-se uma predadora, prestes a dar o bote... Ainda enrolada na toalha, vai para o quarto escolher o modelito de sexta-feira. Abre o guarda-roupa e fica conferindo os micro vestidos e as microssaias.
A noite promete ser gelada, mas cogita a possibilidade de mostrar as pernas e os seios siliconados. Olha para o jeans e o sobretudo, mas logo tira a ideia da cabeça.

- Nem pensar! Não gastei o salário do mês inteiro nesses vestidos de marca para deixar no armário! Hoje eu vou vestida para matar! Hahaha!
Suzete, a periguete, fica em dúvida entre o sapato preto de salto agulha, a bota cano curto de couro marrom, ou a bota de camurça preta, de cano alto. Decide pela bota de cano alto, veste o micro vestido prata de paetê, a meia-calça cor da pele e se prepara para a maquiagem.

- Vou chegar chegando, ‘causando’! Ah, se vou! O Amilton vai ver o que ele perdeu!, fala para si mesma, com raiva, enquanto capricha na base, na sombra cintilante e no contorno dos olhos. Sem esquecer do batom vermelho e do gloss. Depois escolheu o perfume de lançamento de uma griffe francesa e começou a espalhar pelas orelhas, pulsos, por entre os seios..

- Agora só falta mais uma ajeitada nesse cabelo... Assim! Aiii, cadê o reparador de pontas? Ah, achei! Uau, perua! É hoje que você vai arrasar na balada!, diz, enquanto se olha no espelho, seu cúmplice dos bons e dos maus momentos, das horas de euforia e de profunda tristeza.

Logo após se vestir, se dirige ao espelho grande da sala e se olha de cima a baixo. Gosta do que vê e passa a beijar os ombros de aprovação. Solta uma gargalhada ao lembrar da Valesca Popozuda, começa a dançar e cantar em frente ao espelho.

- Beijinho no ombro pro recalque passar longe,
Beijinho no ombro só pras invejosas de plantão.
Beijinho no ombro só quem fecha com o bonde,
Beijinho no ombro só quem tem disposição...
 

O celular toca e Suzete, a periguete, atende. Já estava esperando pela ligação, que chegou em boa hora.

- E aí, Fafá? Eu já tô, sim! Aperta no interfone quando chegar. Ou buzina, então! Ok, ok, não demora, porque Ladies Free é só até às 23 horas, não esquece!

A buzina toca e Suzete, a periguete, desce as escadas correndo, entra no carro da amiga e as duas rumam para a balada. Ao atravessar a porta da boate, ela circunda o lugar com os olhos, como a procurar alguém, se deliciando com o fato de estar chamando a atenção dos homens, ao mesmo tempo que recebia olhares fulminantes das mulheres.

- É hoje! A noite promete!, pensa Suzete, a periguete, enquanto se dirige para o centro da pista, desfilando e distribuindo sorrisos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

CONTO - Reminiscências ao entardecer

Sentado na varanda, o aposentado mirava o horizonte, onde o sol se despedia e lentamente cedia espaço para a noite chegar. Era o momento em que ele gostava de se isolar com suas recordações. Nessas horas, não raro, soltava discretos suspiros e seus olhos ficavam embaçados.

O movimento de vai-vem da cadeira de balanço combinava com o ritmo de suas memórias, entrecortadas e carregadas de nostalgia. Ficava lembrando da família, dos nove irmãos, da dura lida na roça, do breve tempo em que foi estudar no seminário, a mando dos pais, católicos fervorosos... E do dia em que deixou a pacata cidade do interior e se aventurou na capital, aos vinte anos de idade...

Lembrou também dos estranhamentos, da difícil adaptação com o corre-corre, da luta pela sobrevivência, da distância da família... Da sua bem conhecida timidez, do primeiro casamento, da distância dos filhos, depois da separação... De quando refez sua vida e foi tocando em frente...

As profundas rugas e a fisionomia cansada do octagenário revelavam angústias cuidadosamente guardadas. É bem verdade que ele andava muito esquecido, nos últimos tempos. Tentava lembrar o que tinha almoçado ontem, mas a memória não estava ajudando. “Velho é assim mesmo! O tempo vai passando, os anos vão pesando...”
Mas se a memória de curto prazo o pregava peças, ele não esquecia dos tempos de menino, das longas caminhadas para ir à escola e das geadas no inverno. “Lá se vão mais de setenta anos! Quantos já se foram!”, refletia.

Ele jamais conseguiu esquecer do dia em que seu avô se levantou bem cedo, se arrumou cuidadosamente, sem esquecer do precioso “rapé”, e rumou corajosa e decididamente até a porteira do sítio. Assustado com esse rompante, o então neto adolescente o abordou, no dialeto vêneto:

- Onde é que o senhor vai, nono?,  perguntou, apreensivo.
- Vou voltar para a Itália!, respondeu o velho imigrante, convicto. Foi somente depois de muita conversa que ele conseguiu tirar aquela ideia fixa da cabeça do nono...  Era a vontade de retornar à terra-mãe, história que com certeza se repetiu no coração de todos os imigrantes que chegaram ao Brasil e não conseguiriam fazer o caminho de volta...


A noite chegou. Estava na hora de acender o fogão à lenha e se agasalhar, “porque o frio hoje vai ser de lascar”, pensou o idoso, enquanto se levantava lentamente e se dirigia à cozinha.

* Texto originalmente publicado na revista literária digital Letras et Cetera, em 1º de junho de 2012, que produzi em homenagem ao meu pai Almerindo e às histórias de família.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Um conto cor-de-rosa

O relógio de parede do centro de imagem marcava 7h45. Sentada na confortável poltrona da sala de espera, os olhos de Maricéia discretamente percorrem o recinto e procuram traçar um perfil dos demais. Assim como ela, várias pessoas esperam para serem chamadas. Algumas procuram se distrair olhando o noticiário da televisão, outras ficam olhando o relógio, impacientes. Mas há também as que se mantêm com o olhar perdido, se fixando em um ponto da parede, ou no chão.

Ao escolher um dos bancos, Maricéia ficou de frente a duas mulheres que se comunicavam na linguagem dos sinais. Viu que ambas a olharam, curiosas.
-Será que está estampado na minha cara? Será que é tão visível o medo que sinto do resultado do exame? Devo estar impressionada com o caroço no seio esquerdo... Melhor não sofrer por antecipação! – pensou ela, desviando os maus pensamentos e dirigindo o olhar para o relógio. Estava quase na hora de ser chamada e a sua expectativa aumentava a cada minuto.

Por fim chegou o momento e a recepcionista a chamou.
- É agora! Seja o que for, vou enfrentar!, disse para si mesma, enquanto se dirigia para a sala onde eram feitas as mamografias.

Ao sair da sala de exames, Maricéia se dirigiu ao ponto de ônibus que à conduziria de volta para casa. Ao girar a chave da porta, sentiu algo estranho, uma espécie da mal-estar que não soube explicar de onde veio.
Vai direto para a cozinha. É quando enxerga um envelope no meio da mesa, deixado pelo marido: “Maricéia, me desculpe não ter esperado você chegar, mas achei melhor ir embora sem me despedir. Estou voltando para Rincão do Norte. Não dá mais pra mim. Procure as tuas amigas. Boa sorte. Miguel.”

Sem crer no que tinha acabado de ler, Maricéia se sentiu sem chão. Desabou a chorar por um bom tempo, até secarem as lágrimas. Depois ela levantou, foi lavar o rosto e se olhou no espelho por alguns minutos, tempo suficiente para o filme da sua vida ser projetado na sua frente. Aí ela decidiu reagir, depois de um longo suspiro.

Os olhos de Maricéia ainda estavam inchados quando ela decidiu sair e procurar as amigas para desabafar e trocar experiências. No caminho, uma linda rosa cor-de-rosa chamou sua atenção e acendeu uma “lâmpada”.
- É isso! Vou agora mesmo na Rede Feminina! Lá as minhas amigas vão me entender... Não importa o resultado do exame. Uma guerreira nunca depõe as armas sem lutar. Tenho certeza de que vou ser vitoriosa e ainda poder ajudar outras mulheres na mesma situação!, disse para si mesma, determinada a vencer.

Em seguida ela pegou delicadamente a rosa entre as mãos e a cheirou profundamente. O suave aroma da flor entrou por suas narinas e tomou conta de seu corpo e de sua alma. Apertou o passo. Estava decidida a chegar o quanto antes na sede da Rede Feminina de Combate ao Câncer. Sentia que podia ajudar muito a conscientizar outras mulheres durante o Outubro Rosa.



sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Minha coluna No Mundo da Lua de hoje, na página 2 do Jornal do Vale do Itapocu, traz a crônica "Gatos e humanos".


Lindo dia lá fora

"Passarinho cantou, cantou na janela... coração apertou, sol iluminou, flor desabrochou... Nem sempre a vida é justa, nem sempre nos sentimos gratificados e reconhecidos pelo que fazemos... Mas hoje, o dia está lindo dia lá fora... Sai, angústia! Dê lugar à alegria!"  Sônia Pillon

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Gatos e humanos

Nem todos gostam de gatos. Há os que não suportam a ideia de ter um bichano por perto. Alguns chegam ao extremo de odiar os felinos, a ponto de maltratar, torturar e até matar, de fome, a pauladas, envenenados, afogados… E não existe meio termo quando se trata desses animais de pelo macio e miados manhosos.

Dificilmente um gato provoca sentimentos de indiferença, tanto que poucos conseguem manter o olhar de um gato por muito tempo. Geralmente as pessoas desviam o olhar, desconcertadas. Pode ser perturbador ser olhado de uma forma tão penetrante, como a desvendar mistérios…

Os antigos egípcios consideravam o gato uma divindade, por suas qualidades de estrategista, raciocínio rápido e agilidade, até para eliminar os ratos. No tempo dos faraós, eram sinônimo de extrema boa sorte.

A altivez característica de um gato aparenta nobreza, segurança.Seus movimentos estratégicos e seu porte transpiram independência. 

E mesmo que você o alimente e 
o mantenha com você, não se  engane: ele estará sempre no comando!


Existem muitos mitos relacionados aos felinos. Por ideias trazidas no inconsciente coletivo, que remontam à “Idade das Trevas”, os gatos passaram a ser associados às bruxas e seus feitiços, apontados como maléficos e traiçoeiros. Eram associados às feitiçarias, queimados como as bruxas. E por mais que séculos tenham se passado, há os que nem sequer os dão o direito de viver, os condenando à morte tão logo são paridos…

Os intolerantes alegam que eles soltam pelos, que arranham e destroem móveis, roupas, utensílios... Ou ainda que são “ladrões”, porque eventualmente pulam em cima da mesa e se apoderam da comida… Outros justificam o não gostar porque eles seriam egoístas e se apegariam mais às casas e ao conforto que desfrutam, do que aos próprios donos…

As estórias infantis e os desenhos animados sempre foram pródigos em apresentar personagens sádicos, como “Tom” (Tom & Jerry), “Garfield”, preguiçoso e egocêntrico, “Manda-chuva”, que comandava uma gangue de gatos de rua, e o arteiro “Gato Félix”…

Para os que conhecem de perto esses animais lindos, de andar gingado e pelagem brilhante, sabem que eles podem não ser espalhafatosos nas demonstrações de afeto, como os cães, mas nem por isso são menos afetuosos. Um gato que é acolhido, alimentado, bem cuidado e tratado com carinho por seu dono sabe, sim, retribuir a atenção de forma profunda e leal. Porém, se for tratado com hostilidade, agirá em defesa própria, seguindo a lei da sobrevivência…

É certo que eles se “adonam” da casa, se esparramam por todo o canto, são altivos e têm personalidade. Em alguns casos, parecem agir como se fossem os donos e “permitissem” que os humanos ocupassem o espaço… Mas, para os que amam gatos e respeitam sua personalidade, essas características importam muito pouco, pelo bem que a sua presença faz na vida de seu dono. Afinal, eles amam incondicionalmente os que entendem seu jeito de ser.

Muitos acreditam que gatos são profundamente sensitivos e sensíveis, atuando como “filtros” das energias negativas no habitat que dividem com os humanos. E que até adoecem seriamente por serem tão protetores.


Por todos esses fatores, mesmo que você não morra de amores por gatos, pelos menos os respeite. Ensine seus filhos que animais de estimação não são bichos de pelúcia: eles sentem dor, fome, ficam doentes e têm o direito de serem tratados com dignidade, até porque maltratar animais é crime e um ato que não se pode tolerar em seres que se dizem “humanos”.

Foto: Flor de Lótus - Arquivo Pessoal de Sônia Pillon


Esta é a segunda versão. O texto original foi publicado no http://cooperativadeletras.wordpress.com/2013/12/16/gatos-e-humanos-sonia-pillon/

domingo, 5 de outubro de 2014

O degredo de Nitiren, da obra "ENCONTRO COM A PAZ.."

'Envolto em suas vestes rústicas de algodão, o venerável iluminado dividia com seus discípulos o pouco de arroz que havia sido trazido pelos visitantes do último verão. Os viajantes enfrentaram grandes dificuldades até encontrá-lo, em busca de um novo sentido para suas vidas. O rigoroso inverno..." Trecho do conto "O degredo de Nitiren", que integra a obra ENCONTRO COM A PAZ e outros Contos Budistas, lançado pela Giostri Editora, de São Paulo.

Leitores de Jaraguá do Sul e Região que queiram adquirir o meu livro "ENCONTRO COM A PAZ...", podem se dirigir à Revistaria do Jaraguá do Sul Park Shopping, ou na Livraria Grafipel. O investimento é de R$ 30. Ou ainda na sede do Jornal do Vale do Itapocu. Em São Paulo, nas Livrarias da Giostri Editora.